Dean, Warren.
1996. A ferro e fogo - A História e a Devastação
da Mata Atlântica
Brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 484 p. ISBN:
85-7164-590-6.
Warren Dean, historiador americano que teve um trágico falecimento
num acidente em Santiago do Chile em 1994, quando "Ferro e fogo"
ainda estava no prelo, deixou uma contribuição valiosa
para um assunto até então "não contemplado"
na historia brasileira, a "Mata Atlântica". No livro
a "Mata" é tratada como uma única região
e não parcelada em Estados, municípios ou regiões
como geralmente se costuma ver na historiografia "clássica".
Com isso, "Ferro e Fogo" serve não só para se
entender como se deu a destruição da "Mata Atlântica"
como também contribui na compreensão do desenvolvimento
brasileiro. Dean se mostrou incansável na busca de fatos políticos,
sociais e principalmente econômicos que influenciaram a intervenção
humana na maior floresta tropical do mundo nas diferentes épocas
da história.
Vale salientar aos ecologistas que este não é unicamente
um livro em "defesa da floresta". Também não
é uma crítica ao "Imperialismo". A história
de Dean começa muito antes da colonização, na época
em que a caá-etê, nome indígena da Mata Atlântica,
era habitada apenas por coletores-caçadores. Embora ele não
deixe de ser crítico da forma como a
floresta foi usada na trajetória imperialista, não aponta
culpados nem vítimas. Em síntese pode-se afirmar que esta
é a história de mais uma das irracionalidades da espécie
humana.
Dean "faz o tempo passar" com os olhos dentro da "Mata"
e, desoladamente, a vê desaparecer em poucos séculos. Seu
estarrecimento com esta destruição começa já
nos primeiros parágrafos da Parte 1 quando de dentro do avião
na
chegada ao Rio de Janeiro ao percorrer os olhos pelo que restou da Mata
Atlântica, comenta: "Não há nada de notável
neste ambiente humanizado" (DEAN,1996:19).
Mas quando e como surgiu a Mata Atlântica? Desde quando essa arena
de milhões de formas de vida pulsa, peleja e agoniza despropositada
e incessantemente? Pode-se afirmar que seu "surgimento" se
deu por uma gama de convergências de fatores tão diversos
como antagônicos: com períodos de inundações
gigantescas e outras épocas de intensas atividades ígneas
(fogo), e entre esses períodos, ainda ocorreram pelo menos duas
invasões glaciais milenares. Sabe-se que a linhagem das florestas
tropicais é extremamente antiga, embora a sua evolução
tenha sido espetacularmente rápida e multiforme. Há aproximadamente
40 milhões de anos, algumas espécies vegetais conseguiram
um tipo especial de ramificação. Assim um ramo se converteu
em um estame principal que depois se desenvolveu para transportar água
para cima e nutrientes para baixo, em um tronco. Dessa forma, escaparam
da competição ao nível do chão e alcançaram
a luz solar, ganhando imunidade contra a predação animal.
Assim surgiram as primeiras florestas tropicais da terra. O surgimento
da floresta denominado de "Mata Atlântica" foi um evento
triunfal na concepção de luta pela vida e morte que por
fim, formou uma diversidade de vida, que jamais foi compreendida em
sua totalidade.
Pelos cálculos de Dean a Mata Atlântica cobria cerca de
1 milhão de quilômetros quadrados, que juntamente com a
Floresta Amazônica formavam, uma zona biogeográfica das
mais ricas em espécies que outras florestas tropicais da África
e Ásia.
Enquanto isso do outro lado do oceano entre campos gramados e florestas
da África, surgiram nossos ancestrais hominideos, manipulando
o fogo e armas de pedra em sua busca de caça e com isso espalhando-se
pela Ásia e Europa.
Muito mais tarde esses humanos em forma e inteligência lançam-se
rumo ao estreito de Bering e mais além, onde se encontrava aquele
último império oculto e maduro para a conquista; as terras
do que viria a ser à América, milhares de anos depois.
Estima-se que a primeira leva de invasores humanos na Mata Atlântica
fique em torno de 13 mil anos, mas as evidência arqueológicas
nos oferecem poucas pistas sobre os padrões de assentamento,
adaptações culturais ou adequação da exploração
do ambiente por estes primeiros invasores. A dúvida se estes
primeiros homens a utilizar a Mata Atlântica alcançaram
o equilíbrio com seu ambiente natural talvez nunca consiga ser
respondida. E a paisagem vista pelos europeus no século XVI será
que seria a mesma se eles chegassem alguns milênios antes? Difícil
de avaliar se as intervenções destes primeiros habitantes
causaram ou não mudanças significativas na paisagem. O
que se pode afirmar com certeza é que mesmo que a Mata Atlântica
fosse até certo grau modificada pela intervenção
desses caçadores-coletores, não poderia ter sido transformada
tão extensamente como foram as florestas dos continentes ocupados
pelo Homo sapiens.
Foi com a adoção da agricultura que a relação
entre homens e floresta muda radicalmente, e isso só foi possível
pelo uso do fogo. O que era um recurso residual, produto inferior para
os caçadores-coletores geralmente causado por descuido ou acidente,
quando não para cercamento da caça, agora se tornava sua
principal estratégia. Desde cedo se percebeu que a
agricultura se mostrava mais viável nos solos da floresta comparados
aos solos do cerrado. A técnica era extremamente simples e eficaz;
perto do fim da estação seca, a macega de uma faixa de
floresta – em torno de 1 hectare calcula-se – era cortada
e deixada secar e por meio de machados de pedra retirava-se um anel
da casca dos troncos maiores. Um pouco antes da chegada da chuva esta
área era queimada, fazendo com que a enorme quantidade de nutrientes
da biomassa da floresta caísse sobre a terra na forma de cinzas.
As chuvas drenavam os nutrientes para o interior do solo neutralizando-se
e ao mesmo tempo fertilizando-os. Procedia-se então o plantio
com o auxílio somente de um bastão de cavoucar. A floresta
que nunca antes havia sido queimada, não só ficava maravilhosamente
fértil, mas também livre das sementes de plantas invasoras.
Dessa forma pouca capina (manual) era necessária. Esta era em
síntese uso que se fazia dos recursos da floresta até
a chegada dos europeus.
A invasão dos europeus a partir de 22 de abril de 1500 denominada
por Dean de: "A Segunda Leva de Invasores Humanos", irá
transformar profundamente a paisagem "natural" da Mata Atlântica.
O primeiro ato dos portugueses neste
dia foi derrubar uma árvore e confeccionar uma cruz rústica,
o que para eles era o símbolo da salvação daqueles
"selvagens" pela "civilidade". Aquele ato é
simbolizado por Dean, como o começo da devastação
mais rápida
que a "Mata" sofreria.
A característica da segunda invasão humana na caá-etê
era que os invasores, os europeus, não estavam meramente migrando
para um novo ambiente, mas pretendiam também manter contato com
o antigo. Isso implicaria na substituição, mais cedo ou
mais tarde, de um escambo aleatório entre uma população
nativa desejosa de armas de ferro e
bugigangas por "objetos exóticos" colecionáveis
nas cortes européias. O marco desta invasão, denominado
de colonização, foi um fenômeno essencialmente ecológico,
no qual os colonizadores comandaram a dispersão de inúmeras
plantas e animais. Esses "invasores" chegavam com recursos
bióticos próprios que continham uma grande vantagem, pois
estas espécies transferidas para a Mata, estavam imunes às
pragas e predadores com os quais haviam co-evoluído. Dessa forma,
no novo ambiente, a tendência era a proliferação.
Seria difícil imaginar como os europeus obteriam tão rapidamente
a hegemonia no Novo Mundo se não tivessem comandado a implantação
de um exército de plantas e animais "domésticos".
A principal cultura "importada", nos primeiros anos de colonização
foi à cana de açúcar. Que na terra virgem da Mata
era desnecessário qualquer tipo de adubo, além disso,
em certos lugares a cana poderia ser cortada ano após ano. Fato
considerado excepcional para os interesses dos colonizadores, pois em
outros lugares como a ilha da Madeira e em São Tomé o
adubo já era empregado com uma certa freqüência nos
canaviais. Foi com o açúcar que o Brasil conheceu o modelo
português de plantation escravista que iria perdurar por mais
de 300 anos.
A cultura indígena logo foi disseminada. Práticas nativas
foram abandonadas e já por volta da metade do século XVI,
apesar da exorbitância dos recursos naturais, há relatos
que em algumas aldeias tupis onde instrumentos de ferro eram poucos,
existia visíveis sinais de fome entre os índios. Além
disso, com o contato entre europeus e nativos houve uma
quantidade enorme de doenças até então desconhecidas
pelos últimos. Estes dois fatores fizeram com que por volta de
1600 só restassem em torno de apenas 5% de índios existentes
desde a chegada dos europeus em 1500, um assombroso extermínio
em 100 anos. O avanço da espécie humana sobre a floresta
sempre se fundou em destruição, mas, já no início
do século XVII, pela primeira vez, se notava que esta destruição
seria irreversível. A diversidade da Mata Atlântica incluía
uma ordem notável de criaturas invasoras ansiosas por apropriar-se
das colheitas das zonas alteradas pelas clareiras abertas pelos lavradores.
Os ciclos naturais da floresta ocasionavam a infestação
principalmente de animais. Umas dessas, ditas "pragas", era
a formiga cortadeira, uma espécie que os nativos chamavam de
saúva. Muitos dos colonizadores a acusavam de ser o fator limitante
mais significativo para a expansão das lavouras, pois nenhum
dos "novos" cultivos estava imune.
A criação de gado, que era a princípio vista como
"uma maravilha", pois o crescimento dos pastos era luxuriante,
fazendo com que os animais engordassem rapidamente também sofreu
limitações, pois após uma ou duas gerações
de pastoreio essas paisagens edênicas transformavam-se em solos
devastados. O gado tendia a pastar demais no capim mais palatável,
com isso os campos definhavam em plantas raquíticas, ou doentias.
A solução encontrada era sempre devastar novas áreas
da "Mata".
Já no início do século XIX os viajantes europeus
se espantavam com os padrões de vida baixíssimos num lugar
de tamanhos "bens naturais", pois se baseavam na experiência
européia que havia retirado ganhos bem mais elevados de uma medíocre
reserva natural. Questionavam-se onde estava a racionalidade de destruir
recursos florestais para alcançar resultados tão pobres?
É claro que a floresta havia sido transformada em capital, mas
não capital localmente aproveitado. O lucro que a "Mata"
havia proporcionado durante estes três séculos de invasão
estava nas cortes da Europa. Uma das conseqüências positivas
para a "Mata", se não a única, com a vinda da
coroa portuguesa, em 1808, para o Brasil, tornando-o sede do Império;
foi que a partir daí alguns cientistas naturais renomados começariam
a descoberta, depois de significativa devastação, da diversidade
da "Mata".
A Arquiduquesa austríaca Leopoldina, casada com Pedro, filho
de D. João VI, agora rei de Portugal, foi uma das primeiras incentivadoras
desses estudos, foi sobre influência dela que o museu do Jardim
Botânico no Rio foi reaberto. Por influência de Leopoldina
vieram para o Brasil reconhecidos cientistas naturais austríacos,
como Johann Emanuel Pohl e Karl Friedrich Phillipp von Martius entre
outros. Mas o mais conhecido naturalista europeu a estudar não
só a floresta, mas a sociedade
brasileira nos primeiros anos do século XIX foi o francês
Augusto Saint-Hilaire um observador arguto e apaixonado pela paisagens
da "Mata".
Saint-Hilaire observou, por exemplo, que os indígenas possuíam
conhecimentos peculiares sobre o uso da flora brasileira e eram capazes
de identificar inúmeros benefícios medicinais dessa diversidade.
Benefícios que os europeus jamais descobririam.
Com a Independência do Brasil em 1822, teoricamente o país
estava livre da opressão mercantilista, não mais seria
um peão nas mãos da monarquia portuguesa, sempre avara
para defender seus interesses no jogo político europeu. A política
de D. Pedro, o novo Imperador do Brasil foi adotar políticas
autônomas (criou uma nova constituição) que lhe
permitissem
prosperar acelerando a exploração dos recursos naturais
do país. Em suma intensificando a economia extrativista colonial,
mas agora seguindo a era do livre comércio com uma "agricultura
racionalizada". A Mata Atlântica era um ativo fundamental
nesta empreitada e a maneira de administrá-la não diferia
da dos tempos em que o Brasil era colônia de Portugal. Ou seja,
sua destruição.
Esta estratégia tinha ainda um agravante. Por não ter
capacidade administrativa, nem recursos suficientes o "novo"
Estado brasileiro passa a "Mata" para as mãos de interesses
privados que assumem a terra não mais na busca de metais preciosos,
já esgotados, mas como agricultores vorazes por novas terras
para o cultivo de uma cultura exótica e de enorme potencial econômico,
o café. Mas o que talvez tenha sido o principal agravante na
devastação da Mata Atlântica nessa época
foi à crença de que o café deveria ser plantado
em terras "virgens". Esta suposição se dava
muito porque o trabalho e o capital eram escassos para se gastar com
plantio em solos menos férteis. O café passou nesta nova
fase da agricultura no país a ser produto das grandes fazendas
doadas em sesmarias. Os cafezais foram em última análise,
ao mesmo tempo, a salvação
da aristocracia colonial e a intensificação da destruição
dos recursos da Mata Atlântica, especialmente pelo uso mais intensivo
das queimadas para derrubar a floresta.
Porém as queimadas para os cultivos de café não
foram os únicos instrumentos utilizados na devastação
da Mata Atlântica durante este período, o comércio
de café induziu o crescimento demográfico, a urbanização
e logo a industrialização e a construção
de ferrovias. Conseqüências diretas da prosperidade febril
baseada num único produto de exportação. Deu início,
com isso aos ciclos econômicos brasileiros que causariam irreversíveis
danos a paisagens da "Mata".
No final do século XIX, com o fim da escravidão e a implantação
da República no Brasil várias mudanças sociais,
políticas e econômicas ocorreram no país, mas em
nada mudaria a forma de exploração da Mata Atlântica.
Os Republicanos construíram um novo pavilhão social no
lema "Ordem e Progresso". A ordem era tomada como no sentido
da disciplina em
como na hierarquia social e dos direitos de propriedade. O Progresso
significava a aplicação insensata de tecnologia importada
em seu nome. E para isso a rápida eliminação de
uma "vegetação não lucrativa" era marca
definidora de ambos os termos.
A industrialização brasileira foi concomitante a devastação
da Mata Atlântica. Um industrialismo predatório como Chamou
Dean foi intensificado durante todo o século XX. Além
disso, o crescimento demográfico exercia uma pressão cada
vez mais intensa sobre os recursos da Mata. Na segunda metade do século
XX a política desenvolvimentista "imposta" ao
Brasil após a II Guerra Mundial seria mais uma terrível
ameaça contra a Mata Atlântica, ou o que sobrou dela. A
obsessão pelo crescimento econômico foi à tônica
das políticas do país.
Com a ditadura militar imposta em 1964 e que iria durar mais de vinte
anos, desenvolver-se e modernizar-se a qualquer custo era mais que uma
política governamental significou um programa de abrangência
continental A idéia de crescimento econômico penetrou a
consciência e a cidadania da sociedade brasileira, o que justificava
todas as arbitrariedades de um
governo opressor. Nas representações do Estado, nos meios
de comunicação e no imaginário popular o desenvolvimento/crescimento
econômico se vinculava a irradiação da pobreza.
O que se mostrou uma quimera.
Na realidade a estratégia deliberadamente perseguida colocou
o crescimento econômico no lugar da redistribuição
da riqueza. Com isso a maior parte dos ganhos do crescimento era outorgada
àqueles no topo ou próximo ao topo
da escala social, intensificando a concentração de renda.
A reforma agrária e a titulação efetiva da terra
pertencente a pequenos produtores eram evitadas pela promoção
da expansão da colonização sobre as últimas
faixas remanescentes da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica.
Durante todo este período a ânsia por terras e a contínua
exploração destrutiva da floresta enquanto recurso não-renovável
provocou inevitavelmente um declínio acelerado das faixas remanescentes
e relativamente intactas da Mata Atlântica. Pode-se dizer que
a "Mata" foi barganhada por um "crescimento econômico"
concentrador.
Enquanto isso, no final da década de 60, os custos ambientais
começavam a ser debatidos internacionalmente com uma certa urgência
entre cientistas e políticos dos países desenvolvidos.
Um dos eventos que marcaram esta preocupação foi a primeira
Conferência da Nações Unidas sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972. A posição
arrogante do governo militar brasileiro nesta Conferência foi
de uma incoerência bestial. Estes políticos despreparados
e desconhecedores dos reais problemas ambientais que já se começava
a perceber no mundo todo
suspeitavam que "a questão ambiental" era mais um obstáculo
inventado pelos países industrializados para evitar o crescimento
dos países pobres, já que para eles, as vantagens comparativas
do Brasil eram justamente sua "capacidade ambiental" de absorver
a poluição das indústrias. A declaração
de um Senador medíocre do nordeste que viria a ser presidente
do Brasil na década seguinte, José Sarney, mostra o retrato
desta posição: "Que venha a poluição,
deste que as fábricas venham com ela"(DEAN,1996:307). A
saída dos militares do poder foi rancorosa. A campanha "Diretas
já"
deflagradas entre 1984 e 1985, foi rechaçada pelo Congresso,
repleto de membros nomeados e aliados a uma política corrupta
e subversiva. Mesmo assim o candidato da oposição Tancredo
Neves conseguiu se eleger através
de uma aliança com políticos de direita. Fazendo de José
Sarney, seu vice. Este acabou assumindo como presidente entre 1985-1989,
pois Tancredo faleceu antes de assumir. Político limitado tanto
de respaldo político como de visão sócio-política-econômica
e ainda comprometido com a política tradicional, o favoritismo
e o compadrio e sobretudo com os militares. Não havia muita esperança
aos interesses da conservação da "Mata", pois
governo brasileiro continuou a encarar as questões ambientais
com desconfiança e incompreensão.
Neste período o país se democratizou, pois há anos
vicejava uma cultura política democratizada. A Igreja, os sindicatos,
as associações de bairros, os partidos políticos
se viam agora livres das limitações imposta por quase
30 anos de ditadura militar. E apesar das enormes dificuldades econômicas
e sociais enfrentadas pelo país após a ditadura, nos anos
80, começa-se uma inserção mais realista das questões
ambientais. Com a pressão mundial sobre a crise ambiental o xenófobo
governo brasileiro não mais pôde ignorar que o Brasil possuía
graves problemas ambientais. Ambientalistas brasileiros que deste a
década de 70 lutavam para delimitar reservas florestais no país
subitamente começaram a ganhar apoio e atenção
internacional. Uma parte desta atenção foi canalizada
para já destruída Mata Atlântica, que foi reconhecida,
juntamente com as florestas de Madagascar como uma das mais ameaçadas
do mundo. A partir desta década o movimento ambientalista brasileiro
começou a se tornar um movimento político. Este movimento
criou um bloco ambientalista no Congresso e fundou um pequeno partido,
o Partido Verde. Se estimulou, por pressões na Assembléia
Constituinte o direito do cidadão ao meio ambiente natural viável.
A Mata Atlântica foi declarada como parte do patrimônio
nacional. O ponto negativo destes movimentos foi que muitos políticos,
que até pouco tempo nem conheciam as questões ambientais,
aproveitaram-se "da causa" em proveito eleitoral, já
que entre a população brasileira, ainda hoje, se vê
muito desconhecimento sobre toda a complexidade que envolve a questão
ambiental.
Muitos conflitos surgiram a partir daí envolvendo ambientalistas.
Deste interesses empresariais notoriamente poluidores até questões
indígenas (representada por uma Funai às vezes pouco conciliadora),
passando pelas dificuldades de inserir questões de interesses
das sociedades autóctones, na verdade os verdadeiros moradores
da "Mata". Num levantamento feito pela organização
S.O.S. Mata Atlântica e divulgado em 1990, se soube que restava
no final do século XX pouco mais de 8% da floresta que presumivelmente
havia em 1500. Diante disso Dean lamenta que a consciência ambiental
na cultura brasileira tenha alvorecido "quase" tarde demais.
Pois mesmo após a comprovada exaustão dos recursos da
Mata Atlântica parece que as estratégias de exploração
não foram mudadas, exemplo disso é que a destruição
de sua floresta vizinha, a Amazônia, mesmo depois de comprovada
a fragilidade do seu solo continua sendo tratada como "terra roxa
do sudeste"do país. A história da destruição
da Mata Atlântica provoca presságio e alarme das terríveis
conseqüências que poderá ter as "árvores
da Amazônia" se continuar a mesma forma de ocupação
humana.
As previsões de Manuel Arruda da Câmara já 1810
e, alguns anos mais tarde, do naturalista Auguste Saint-Hilaire, de
que a extinção da Mata Atlântica seria induzida
pelo próprio homem, no início da década de 90 do
século XX estava confirmada, a Mata Atlântica se encontra
em situação crítica. E ainda o que é mais
desalentador é a evidência de que os últimos recursos
da floresta primária continuam a se converter em terra arável
e/ou em pastagem, reservatórios e rodovias, clubes de campo e
favelas. Para Dean a última esperança para a salvação
do que resta da "Mata" é a atuação mais
eficaz dos órgãos públicos e o conhecimento mais
aprofundado do total de sua biodiversidade.
Para finalizar as palavras do próprio Dean explicam as suas intenções
com Ferro e Fogo: Muitos prevêem, com mal-estar, a iminente extinção
das floretas do planeta. Para esclarecer tais noções e
responder a tais preocupações, o registro da destruição
de uma floresta específica, por vergonhoso e condenatório
que seja, possa talvez ser útil. Esta foi, pelo menos, a
intenção do autor.(DEAN,1996:24) Ainda aconselha aos educadores
brasileiros com uma sugestão para os próximos manuais
de História Brasileira do Ministério da Educação
que, para ele, deveriam começar com as seguintes palavras: "Crianças,
vocês vivem num deserto: vamos lhes contar como foi que vocês
foram deserdados"(DEAN,1996:379) Por fim dois últimos comentários:
1º) Para quem não gosta de notas no final do volume, neste
caso, se justificam plenamente, não só pelas inúmeras
citações, mas pelo vasto número de informações
que cada uma traz, o que só poderia ser feito em um espaço
no final do volume; 2º) "Ferro e Fogo" da Editora Companhia
das Letras de 1996, do qual esta resenha foi feita, está esgotado
e sem previsão de reedição. Jefferson Marçal
da Rocha Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidae
Federal do Paraná.
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