CERRADO E DESENVOLVIMENTO

Neste artigo, o professor-doutor comenta sobre o EIA/Rima feito para a implantação de uma indústria de alimentos.
(Antonio Alberto Jorge Farias Castro)

Ficamos estupefatos quando uma corrente de ar deixou cair em nossa mesa de trabalho o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental que foi feito para a BUNGE ALIMENTOS S.A – Unidade de Uruçuí (PI), instalada em uma das mais importantes áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade do bioma Cerrado, denominada de Área 113 (Área do Mirador-Uruçuí) definida em 1998, e publicada no ano seguinte (1999), a partir do financiamento de vários órgãos (Conservation International, FUNATURA, Fundação BIODIVERSITAS e Universidade de Brasília) e da participação de um corpo invejável de pesquisadores brasileiros em termos de nível técnico e científico envolcidos naquela ocasião (1998).
No aspecto da vegetação e flora, nossa maior especialidade, três páginas apenas são dedicadas, das quais duas páginas de texto e uma página com duas fotos. Uma única referência bibliográfica, errada e ausente na BIBLIOGRAFIA. Uma lista de apenas 32 (trinta e duas) espécies botânicas, que inclui 1 (uma) espécie da Caatinga (Myracrodruon urundeuva), a nossa “aroeira da caatinga”, e outras 9 (nove) espécies botânicas com nomes errados e/ou desatualizados. Coitado do cerrado de Uruçuí, por estar tão mal e pobremente descrito no EIA/RIMA em apreço. Personificando um pouco as coisas: quem de nós desejaria ser tão mal descrito? Vocês sabem quantas espécies grandes (arbustos e árvores) diferentes a gente pode encontrar em apenas 30 hectares de cerrado? Dependendo do método de amostragem, cerca de 50 espécies, se o método for de QUADRANTES, ou cerca de 80 espécies, se o método for de PARCELAS...

Vocês sabem quantas espécies pequenas (ervas) diferentes a gente pode encontrar em apenas 30 hectares de cerrado? De 60 até 180 espécies...

São nessas ocasiões que a gente fica a perguntar: se tantos recursos financeiros foram gastos pelo Governo brasileiro com a realização do Workshop sobre Ações Prioritárias para a Conservação as Biodiversidade do Cerrado e com a publicação dos seus produtos para subsidiar melhor nossas políticas publicas, por que não considerar os resultados deste esforço enorme capitaneado pelo Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Banco Mundial?

Entretanto, é preciso evitar a confusão de coisas. Uma delas, é a instalação da BUNGE. Outra coisa são os impactos que sua instalação irá provocar. Existe opção? É claro que sim, e ela deve ser orientada para a direção da sua instalação, porque antes de tudo, como bem diz parte do título deste ARTIGO: o “Cerrado Piauiense: (é) Um dos Vetores para o Desenvolvimento do Estado (do Piauí)”, apresentado na forma de palestra durante a Semana Estadual do Meio Ambiente, Edição 2003, promovida pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SEMAR), no Auditório do SEBRAE.

Entretanto, a importância da instalação da BUNGE em nosso Estado não é grande por causa do motivo que o EIA/RIMA aponta:
A instalação da BUNGE ALIMENTOS S. A. tem que ser vista como um fator positivo ao meio ambiente e ao desenvolvimento regional, tendo em vista estarem sendo atendidas as exigências legais dos órgãos de controle ambiental, seja da SEMAR, seja do IBAMA, assim como do Ministério Público Federal e Estadual.
Sua importância é grande porque a sua instalação deve estar respaldada no principio do desenvolvimento sustentável, confiamos nós e, portanto, benefícios econômicos, sociais e de minimização de impactos deverão fazer parte da pauta diária da sua operacionalização, até porque, qualquer empresa que hoje em dia não incorpora esta idéia em seus protocolos de engenharia operacional, além de estar profundamente atrasada, assinala também que está agindo de má fé, porque hoje “os tempos são outros” e todos sabem que “não se tem, atualmente, a mesma abundancia de recursos naturais como se tinha no passado”. Ao contrario, se o principio do desenvolvimento sustentável é ou será perseguido pela BUNGE (e o GOVERNO FEDERAL atual privilegia esta posição), ou se no mínimo ela assumirá compromissos neste sentido, que órgãos de controle ambiental se oporão?

Dos impactos apontados no EIA/RIMA, um deles se refere à “redução da biodiversidade” logo na fase de implantação do Projeto BUNGE. Como ação mitigadora, o Relatório sugere a “conservação dos elementos típicos da paisagem mantendo a biodiversidade”.

Nós perguntamos: 1) Quais os elementos típicos da paisagem? Quais as espécies dominantes, intermediárias e raras? Quais os tamanhos das populações vegetais na área de cerrado sob influência do Projeto BUNGE? Quais as associações vegetais presentes? Que medidas de reposição vegetl ou de florestamento com essências nativs estão previstas somente para a recomposição da paisagem anterior, da paisagem natural?

Para outro impacto, apontado como a “fuga da fauna de vertebrados, especialmente aves”, a ação mitigadora proposta é o “plantio de espécies frutíferas da flora atratoras da avifauna original”.

Perguntamos, ainda: 1) Espécies frutíferas de qual flora? Da flora do cerrado local? Ou da “flora”(entre aspas) que serve para homens e bichos? Qual o risco da domestificação de algumas espécies? Além do mais, só interessa a fauna de vertebrados? Somente animais que têm ossos é que devem interessar à BUNGE?
De qualquer modo, muitos pontos estão ruins no Relatório em apreço, com relação, repetimos, à parte do meio biótico, em especial, à parte de VEGETAÇÃO E FLORA.

Na verdade, acreditem, o sentido principal da nossa mensagem centra-se em um aspecto que precisa ser cada vez mais considerado: o pequeno nível de conhecimento que temos sobre os nossos cerrados ser ainda MUITO GRANDE, a despeito de sermos hoje, principalmente no Brasil, um marco de referência do conhecimento dos cerrados do Nordeste.
Mas, acreditem também, desde 1994, já há 8 (oito) anos atrás, para os cerrados do Piauí, em especial, o conhecimento científico está muito mais avançado do que o que foi descrito no EIA/RIMA da BUNGE e, por isso, é que este Relatório serviu de gancho para a nossa fala de hoje. Poderia ser outro...

Assim, os cerrados do Piauí, em extensão aos cerrados do Nordeste, são chamados de “cerrados marginais” porque têm uma flora (conjunto de espécies) preponderantemente composta de “espécies acessórias” (sensu Rizzini), mas, porque estão distribuídos nas margens do espaço geográfico ocupado pelos cerrados brasileiros, sem nenhuma ligação necessária com qualidade da flora ou das espécies.

Os cerrados do Nordeste são um continuação fisionômica (estrutural) dos cerrados do Planalto Central, mas distinguem-se floristicamente por causa da substituição de espécies provocada por três tipos de fatores:
1) A deficiência hídrica dos solos que cresce na direção do Planalto Central – Nordeste;
2) As baixas costas altimétricas;
3) A características de uma flora “areal” (característica de cada área) que responde a padrões lati-altitudinais (latitude e altitude) associados com altos níveis de heterogeneidade espacial.
Dos oito grupos de cerrado que se estabelecem no Brasil, porque não há apenas um TIPO DE CERRADO, um relaciona-se aos cerrados do Nordeste, dois, aos cerrados do Sudeste meridional (São Paulo), três, aos cerrados do Planalto Central, um, aos cerrados do Pantanal e um, último, aos cerrados do Litoral (Migratórios, sensu Fernandes).
O mito da homogeneidade não tem fundamento para os grandes ecossistemas do Brasil. Para a caatinga, sabe-se disto desde 1978. Para Amazônia, sabe-se disto desde 1992. Para os cerrados, desde 1994, através de um trabalho inédito produzido na Universidade Federal do Piauí...
Os cerrados do Nordeste, do Planalto Central e do Sudeste meridional (São Paulo) podem ser interpretados como supercentros de biodiversidade.
A separação destes dar-se-ia através de duas barreiras climáticas: o polígono das secas e o polígono das geadas, e das cotas altimétricas de 400-500m e de 900-1000m.n.m.
Os problemas taxonômicos (de classificação de espécies) continuam grandes e a base bibliográfica continua pequena, principalmente para o Nordeste.
A conservação da biodiversidade dos cerrados brasileiros está cada vez mais ameaçada pela sua ocupação desordenada. Como a maioria das terras de cerrado são privadas, a responsabilidade ambiental e social desta conservação recai sobre os seus proprietários.
Por que os projetos de ocupação dos cerrados do Piauí são todos de CONVERSÃO, isto é, de substituição total da vegetação nativa por vegetação exótica (grãos, eucaliptos, etc.)?
Por que nas grandes áreas de cultivo não se incorpora a idéia dos corredores ecológicos para permitir a conectividade entre ecossistemas fragmentados?
Por que os 20% de áreas de RESERVA LEGAL, uma vez que as terras ainda são baratas, não podem ser ampliadas?
Por que os 20% das áreas de RESERVA LEGAL não são sempre planejados para comporem um único e grande fragmento, que possa permitir a manutenção de nichos ecológicos para a fauna de vertebrados de grande porte?
Por que freqüentemente os desmatamentos escapam do licenciamento ambiental, ou são feitos, enquanto ainda tramitam nos órgãos ambientais pertinentes, os pedidos de licença para este tipo de utilização? Por que os órgãos ambientais estão sempre correndo atrás do prejuízo? Por que os desmatamentos devidamente licenciados, não vão sendo feitos na medida em que as áreas vão sendo efetivamente cultivadas?

Por que somente projetos de retirada da vegetação nativa? Por que é tão lenta, da parte dos produtores, a incorporação da tecnologia que já se tem domínio no Brasil, muitas das quais desenvolvidas pelo Sistema EMBRAPA?
Por que o Banco do Nordeste (BN) não presta atenção na falta de um Plano Diretor para os Cerrados, uma vez que capitaneia tão bem um dos Pólos Integradores de Desenvolvimento, o Pólo de Integração Uruçuí-Gurguéia, que envolve cerca de 23 (vinte e três) municípios na região sudoeste do Piauí.

A idéia antiga de que é preciso alterar a paisagem para dar a impressão de utilização em termos de produção, precisa acabar, tanto quanto as idéias anônimas e infundadas de que a destruição dos cerrados favorecem (favoreciam) a conservação da Amazônia, de que a cobertura vegetal própria dos cerrados atrapalha mais do que auxilia a utilização dos recursos solo e água e de que madeiras sem valor comercial direto ou ainda desconhecido não são essenciais para a sobrevivência de outras que o possuem...

Concluindo... que a BUNGE ALIMENTOS S.A seja bem vinda, tanto quanto a COMPANHIA VALE DO RIO DOCE, para a exploração do níquel em São João do Piauí, ou tantas outras e que as empresas de consultoria que fazem os EIAs/RIMAs desses Projetos estudem mais, pesquisem mais, aproveitando o CONHECIMENTO que há muito já se encontra disponível..., e que sejam, antes de tudo, mais responsáveis com o patrimônio natural vegetal do nosso Estado, porque nos tempos de hoje, mais do que nunca, é preciso incorporar a idéia de que produção também deve incluir manutenção dos benefícios da BIODIVERSIDADE.

Antonio Alberto Jorge Farias Castro é Mestre em Botânica, Doutor em Ecologia Vegetal, Coordenador Geral do TROPEN, PRPPG, na Universidade Federal do Piauí.

Fonte: Jornal Diário do Povo em edição de 14 de Junho de2003.