HISTÓRIA E VERGONHA

George F C Andrade Silva – Prof História/Conselho FUNÁGUAS.

Nossa história é exemplo da incapacidade de um povo em autogerir-se, por conseguinte, de não criar os meios necessários para a realização de justiça social e respeito ambiental em seu seio.

Tudo começou com a notícia da nossa dadivosa terra e gente feita por Caminha, elas poderiam ser exploradas copiosamente, sem restrições: a terra tudo dá e a sua gente bela, dócil, ignorante, inferior, é um pedido à expansão da cobiça, da luxúria, da usurpação. Primeiro vieram os madeireiros, depois, concomitantemente, os monocultores agrícolas/pecuaristas, mineradores, comerciantes, etc., montados em modelo político-sócio-econômico de exploração. Fizeram escola, tanto que ainda hoje se repete a sistematização de dominação, nele, os sujeitos construtores, sejam de fora ou daqui, mancomunados, sem distinção e se há, ela ocorre sutil, detalhes mínimos os elegem naturalmente capazes, ou incapazes. O pior é que não há como fugir a essa condenação/constatação, porque se existe uma área deste país não incorporada efetivamente ao processo econômico global, chegam primeiro os madeireiros, ou monocultores agrícolas/pecuaristas, ou mineradores, agora armados de uma parafernália muito mais eficiente e devoram o que há pela frente fazendo uso dos mesmos motivos de sempre, a cobiça, a luxúria, a usurpação pura e simples da vida aqui existente.
Claro que há sentido no que fazem os dominadores, a cobiça, a luxúria e a usurpação que promovem tem nomes: civilização, desenvolvimento, progresso, integração, oportunidades... Antes dessa nominação que é mais extensa guardando especificidades, no Piauí, uma primeira leva de dominadores desfigurou a nossa paisagem pelo uso da terra com manejos inadequados e fez secarem rios, o Canindé, o Piauí, o Itaueira, o Longá; o Poti e o Gurguéia, reduzidos a filetes d´água em trechos mínimos não podem mais ser caracterizados perenes; secaram lagoas; criaram o processo irreversível de desertificação em Gilbués e continuam a promover queimadas, a derrubar matas ciliares e as últimas reservas florestais, esgotam mananciais e recursos naturais em função de uma cultura resistente e criminosa. Mais recentemente, face primazia tecnicista a reinar, construiu-se Boa Esperança, cortaram o Parnaíba, quebraram o rio, quedaram de dar golpe baixo ao rio, suas várzeas e vazantes não existem mais, não pode mais ser navegado, os peixes sumiram, sua energia é mínima, e agoniza. Barraram outros rios, vales, para uso de apaniguados no proveito da exclusão social que promovem, usam da água o mesmo proveito da terra latifundiária. A inservível, a sulfurosa água dos jorrantes, esta pode ser jorrada a toa para delírio e devaneio da ignorância. Os projetos irrigantes não foram feitos a funcionarem e custam a bagatela daquilo que falta na nossa ceia diária.

Pelos últimos duzentos anos o modelo agro-exportador gerou verdadeiros ciclos econômicos na nossa terra, a exploração da maniçoba, babaçu e carnaúba foram períodos especiais de riqueza, mas, seguramente, não podemos afirmar que tenham provocado uma revolução no seu conjunto relacional. A estruturação do poder vigente na nossa sociedade castrou as possibilidades desse apanágio perseguido que é o desenvolvimento. Por outro lado, desde meados da década de 50 do século próximo passado, mesmo lembrando a “autoestima albertista”, não vimos nossa sociedade sacudida de tanto ânimo, que, enfim, chegou essa era de desenvolvimento, de que a incorporação produtiva dos nossos cerrados será a redenção última para o Piauí. Porém, chama atenção especial os segredos que envolvem o negócio da utilização desses cerrados, eles são sigilosos demais para o conjunto da sociedade, é como febre sem causa definida e sem controle, em convulsão, num corpo, os cerrados viraram salvação por salvação e a nossa gente sem perguntas credita valor, deixa que se passe como real o sonho “paradiso” que lhe atinge. Infelizmente não vemos margem para julgamento diverso disso, a máquina estatal é ineficiente, não tem condições de operar diligentemente em qualquer das suas instâncias deliberativas nem como elemento regulador nem fiscalizador das demandas sociais e ambientais ali requeridas, e a sociedade civil, do mesmo modo, também não se encontra aparelhada para tal. Mais grave, agora, é pensar uma gestão externa direta para os destinos dos cerrados piauienses e de sua gente, coisa que nunca se deu, por isso, vislumbramos que as benesses pertencerão, como sempre, aos dominadores. A planificação de utilização dos cerrados piauienses é de poucos e para poucos, acontece na espreita de uma conjuntura risonha aos dominadores e, ardilosa, forja o cenário do eldorado, da última fronteira. Gravíssimo é constatar que a exploração que se dá não é dos cerrados, não é um produto do cerrado que interessa, aliás, ele é completamente dizimado, só serve ao processo que se instala, a terra nua. Barreiras/BA e Balsas/MA, exemplos últimos do processo que nos angustia, pedem a inclusão social dos seus povos no processo progressista nelas ocorrido e seus meio ambiente pedem socorro. Muitas perguntas e respostas sobre a utilização do nosso cerrado precisam acontecer, elas urgem de uma clareza, porque as experiências conhecidas de Barreiras e Balsas sobre inclusão social e meio ambiente, não podem, não devem se repetir por aqui.

Ressabiados, pois, com o que ocorre observar-se nessa nova ocupação dos cerrados piauienses, quando se repetem as ingerências de ontem, quando se repete a deixa da incapacidade de um povo, quando se repete da sociedade não poder discutir e partilhar em profundidade da solução dos seus problemas e destino, e se não podem agora, como poderão num futuro próximo, daqui a dez, vinte anos, com terra arrasada e gente ainda mais humilhada! A pobreza crônica do Piauí é construída, é histórica e vergonhosa.