Estamos à volta com um processo econômico
e social dinâmico demais e sem controle na região sudoeste
do Estado do Piauí. A bem da verdade, o que se verifica neste
processo é destruição da natureza e espoliação
social.
O financiamento que se observa na região tem um fim, produzir
soja, e que se faça de modo terceirizado, desse modo, o principal
fomentador não é o responsável direto pela dizimação
dos cerrados ficando claro uma intencionalidade: “aqueles que
reviram a terra fazem o serviço e ficamos ilesos, limpos, não
somos culpados, não destruímos a natureza”... E
assim os desmatamentos se dão sem controle. Porque há
fornalhas que não podem parar, incentiva-se o homem da região
que julgam “outra coisa não saber fazer”, a derrubar
tudo em qualquer lugar, até espécies protegidas, em risco
de extinção, a custo de migalhas, porque não tem
outra coisa a fazer.
Poucos, muito poucos participam do processo produtivo. Se antes desse
movimento reclamava-se da concentração da propriedade
da terra, ela é mais acintosa agora. Médios, pequenos
proprietários, minifundiários e posseiros seculares, sem
condições de serem incorporados ao processo produtivo
que se instala, se vêem impelidos a venderem ou a abandonarem
a terra porque não há como competir, não têm
acesso a recursos financeiros, técnicos, não são
orientados ou assistidos. Junto com agregados antigos são jogados
em realidade estranha e adversa para disputarem o emprego inexistente,
a rua onde não podem morar, a cidade impossível de abrigá-los
com dignidade. E se o destino é um rincão distante, isolado,
tece a sina do homem primitivo de outrora, agora sem o espaço
necessário para o extrativismo, porque o cerrado escafedeu-se.
Como ocorre com a terra, a renda é para poucos, muito poucos.
Aliás, há um clube fechadíssimo de produtores,
eles realizam tudo, auferem tudo. Como uma casta superior comandam o
processo só para eles. Para eles, os problemas que ocorram não
são eles os provocadores, mas da ineficiência ou omissão
governamental. De modo algum admitem que promovam o êxodo rural,
que geram excluídos a vagar mendicantes ao derredor.
Os novos controladores estão certos da última técnica
para um melhor rendimento, mas não têm o cuidado em atenderem
o mínimo desejável para a preservação do
meio ambiente. Forjam documentos ineficientes dos rigores técnicos,
para através da licenciosidade oficial praticarem abusos. Apostam
que somente a milagreira soja lhes sustentarão, não importam
os cuidados com os recursos hídricos, os solos, a fauna e a flora
regionais. E porque parece de bom alvitre aniquilar para se impor, aniquilam
os cerrados e o modo de vida do homem da região.
“Adonde a vista dá, moço, não vê, não
fica nada”. “Aonde arrumar emprego! Moço, só
se for noutro lugar”. “Moço, precisa de dinheiro
pra entrar nesse negócio... Mas se conseguir entrar é
como muntar em besta, impina que nem papagai em maio”. “Tem
uma jóia pra entrar no clube de produtores, jóia alta...
Num sei pra que serve essa jóia, mas se jóia é
presente, só pode ser pra presentear quem ajuda eles a destruir
o que tem de bom por aqui”. “Moço, aqui num amiorou
nada, num tem emprego pros mais jovem, dirá pros mais velhos...
No campo num tem mais quase ninguém que era daqui, só
eles... A cidade que deviam miorar, fazem outra só pra eles”...
“Eles dizem que pagam muito imposto e que o governo num faz nada,
que nem escola pros filhos deles tem, dirá pros nossos, hein!
Moço”... “Também ninguém sabe que subsídios
eles arrumaram, mas se arrumaram, pelo que entendo, eles têm que
ter obrigações”. “Moço, você
que também vem de longe, se num sabe direito do que tá
acontecendo aqui, pois eu lhe digo: - Margarina virou sangue dos cerrados”.
George Andrade (07/09/2003).
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