ÊTA! COISA MALARRUMADA!

Perguntar não ofende: como vislumbrar horizontes com a política ambiental adotada no Estado do Piauí? Guardando vicissitudes, deparado com as inúmeras noções de planejamento econômico-social, essa política, porque ela existe, uma colcha de retalhos, mas existe, remete-nos a uma coerência da incoerência, porque o instituto da consciência como motor do desenvolvimento é superado pela mediação do Estado. Para o politicamente correto, isso pode significar segurança, mas, quiçá, não seja reflexo do seu medo, incapacidade de ousar, ou incompetência mesmo.

A peja desse início de discussão, entretanto, perscruta o imediatismo que barra os debates, únicos indicadores ou proponentes formuladores da passagem das consciências, de ingênua a crítica, de alienada a autêntica. Ocorre dos proponentes da desalienação ainda estarem examinando, e se as examinam mesmo, de que forma a preservam, ou com que pretexto podem modificá-la? Até que ponto mesmo, no Estado do Piauí, o pensamento ligado ao desenvolvimento se constitui fonte de reflexão e riqueza? A assegurados ingênuos, do modo como se concretiza, perpetua uma estabilidade cujo objetivo tácito é a consolidação de modelo que recria as condições para retomada de expansão capitalista em bases institucionais de concentração oligopólica, despindo-o do seu caráter caótico e mantendo a miséria instalada de sempre.

O Estado está amarrado em inconsistências sistêmicas que só o sustentam devido a sua eficácia prática, eixo de afirmação do capitalismo, mas, entre nós, do capitalismo selvagem. A referência, se desnudada, desemboca no Estado mínimo. Uma farsa. Entendimento amplificado propõe um movimento maior para reorientação do capitalismo, o que não passa de momento especial para a elaboração de uma consciência de atraso, afinal, que novidade pode ancorar culminâncias dentro de processos históricos anacrônicos como foi e é o desenvolvimento interventor de excelência da civilização industrial ora existente! Ademais, o que vemos, é toda uma estrutura de pólos antagônicos: o país legal em oposição ao país real. A Europa e Estados Unidos liquidaram seus ambientes naturais açambarcados dessa iluminura, será isto que queremos?

Como há no que se espelhar, melhor que seja naquilo que traz aferições materiais vantajosas, que não negamos ocorram com o capitalismo, mas, sinceramente, o que nos reserva a competição? Pensemos, pois, só a possibilidade de a maior produtora de soja do país ser uma multinacional estrangeira! Que tal? Percebem a confusão dessa incoerente competição que lidamos! Não pensem que as multis agem diferentes, sejam de onde forem. Se nacional, agiria do mesmo modo, rezam mesma cartilha, empregam a mesma metodologia, são reféns do modelo. Constatar, pois, da não inclusão social dos povos no processo econômico-social e destruir a natureza ao máximo como fim, é o fim da picada, porém, como a ideologização falseia, os imediatos de plantão, a boca miúda, porque não podem falar abertamente da trama lúdica que é a liquidação da nossa biodiversidade, não tardarão a culpar esse povo: - “É o povo que desmata”. Ah! Coitado! Será povo quem possui trinta mil hectares ininterruptos destocados de cerrados nas condições climáticas que possuímos?

Sabemos das dificuldades porque passa a família piauiense em falta desse pretenso progresso, mas estamos empenhados em alertá-los da inconsistência e precariedade com que se implementam as ações ditas desenvolvimentistas por aqui.
Teima uma ilegitimidade que condenamos e denunciamos. Se há ilegitimidade, não faltam leis, faltam procedimentos adequados. Que se aplique as leis, acabe com impunidades.

Teima uma insistente negação em instâncias do poder regulamentado, de que o povo possa participar das decisões sobre quaisquer questões, dirá ambientais. Como há processo político e administrativo, nestes, faltam os encaminhamentos que promova a aferição popular, da sociedade, da sociedade organizada.

Teima uma industrialização periférica a perseverar abundante excedente de mão-de-obra e alta concentração de capital e renda. Como o complexo Estado de Direito é caótico no Estado mínimo, os poucos que dão ou não dão conta do Estado, perdem a conta do direito, do avesso... Não pensem que dá pra se importarem com pobres, analfabetos, excluídos de todo naipe, isso não dá. Não pensem que dá pra se importarem com cajuis, pequis, bacuris, periquitos cantadores, isso não dá. Não pensem que dá pra se importarem com a água que bebemos, o rio que seca, o solo que não produzimos, isso não dá. Talvez a preocupação única ainda não divulgada seja o uso de pílula alimentar milagreira de soja que intentam um dia produzir e vender para aplacar a fome. A transgenia vem aí! Não pensem que é trecho de frevo arrochado, um convite a esbaldar-se em alegria e prazer. Quem se atreve a ser o primeiro “mutante transgemicida” humano? O Estado seletivo transgênico é homicida.

Teima uma parceria da burguesia com o Estado onde não há culpados. Ambos lavam as mãos como Pilatos. Um nível alto de comprometimento ético e moral reduz-se a prática de uns poucos obstinados que tanto nos estimula a ter esperança e a lutar.

Teima um produzir ineficiente e sem sentido na sociedade, dissociado que está das suas reais necessidades. Você se importaria a pensar um pouco no porquê parece que consumimos mais farinha de trigo do que farinha de mandioca. Não se iluda, é no econômico que mais facilmente percebe-se o que se encontra oculto sob a máscara de democrático.
Teima uma falta de vontade política para a erradicação da pobreza no Piauí. Sem reformar modelo, sem plano, sem estratégia, sem inclusão social, não pode haver desenvolvimento.

Os governantes teimam em não saberem do povo. Sem reconhecê-lo em realidade criada por ele, sem oferecer-lhe o mínimo necessário para a compreensão da sua situação de situado cidadão de deveres, muitos deveres, obrigações, para ser mais compreensível, e direitos inacessíveis, os governantes ainda não fazem política. Se não enxergam os homens, como verão o ambiente? Se não buscam razões, como estarão conscientes? Como poderão conscientizar? Uma política ambiental coerente aplicada com seriedade é uma saída.

Mas, eta! Coisa malarrumada!

George Andrade (06/10/2003).