Os ambientalistas denunciaram o caso no Ministério Público Federal e ainda pediram a suspensão do funcionamento da Bunge Alimentos S/A.

O cerrado piauiense está sendo devastado, principalmente na região de Uruçuí, no sul do Estado. A denúncia é da Fundação Águas do Piauí (FUNÁGUAS), que responsabiliza a Bunge Alimentos S/A, pelo desmatamento. A direção da fundação vai podir o embargo das atividades da empresa, alegando o impacto ambiental que está provocando danos irreparáveis na região.

"Em breve teremos uma área muito grande de desertificação, porque a terra está estéril. Isso é um crime ambiental sem precedentes", denunciou Judson Barros, que é conselheiro da Funáguas.

O presidente da Fundação, George Douglas Brito Araújo, defende que o funcionamento da Bunge deve ser suspenso pela Justiça. Ele alega que não tem como manter o funcionamento de uma empresa deste porte, com a produção à base de lenha.

"Eles ofereceram R$22 por metro cúbico de lenha que era vendido a R$0,80. Isso provocou um desmatamento desenfreado. Os depósitos da Bunge têm mais de 50 mil metros cúbicos de lenha estocados. Esta quantidade dá para funcionar quase um ano", comentou Douglas Araújo.

Ele lamentou que tudo esteja supostamente legal, porque a empresa tem um estudo de impacto ambiental e tudo foi liberado pelo Ibama e pela Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

"Nós passamos por 80 km onde não se vê mais uma árvore sequer. Tudo foi cortado para ser transformado em lenha. Este estudo de impacto ambiental não contempla nada", reclamou.

Judson alertou que a empresa vai plantar eucalipto para manter a produção das caldeiras da esmagadora de soja. "O eucalipto será plantado em larga escala. Cerca de 1,8 mil árvores por hectare. Isso vai provocar o esvaziamento do lençol freático, vai secar os riachos e rios da região e, em pouco tempo, vai faltar água. O eucalipto absorve toda esta água. Eles pretendem plantar algo em torno de 500 hectares, já imaginou isso?", questionou.

Se não fizermos algo agora, se não tomarmos providências urgentes, vamos ter uma enorme área estéril, que será desertificada como em Gilbués, na região Sul, por causa do desmatamento.

O cerrado é, exatamente, a área mais produtiva e o maior bioma de florestas natural do Estado, segundo os ambientalistas.

Tanto Judson Barros quanto George Douglas Araújo encaminharam a denúncia de crime ambiental ao Ministério Público Federal, para que adote as providências cabíveis. DESTRUIÇÃO DA MATA : A destruição da mata começou nos anos 80, o processo de retirada da madeira nos cerrados não é recente. O problema vem acontecendo desde o inicio da década de 80, quando se plantava frutas, arroz e soja. O negócio atingiu o ápice nos últimos meses.

O pesquisador Álvaro Fernando, da USP, foi categórico ao afirmar que o erro está no Estudo de Impacto Ambiental da Área - EIA da empresa, que não fez estudo algum. "As falhas são gravíssimas, a empresa consultora que fez o estudo cometeu erros primários. Cadê o Relatório de Impacto Ambiental? A Constituição manda que se faça o documento, com uma linguagem popular de que toda comunidade tenha conhecimento dos impactos ambientais que uma empresa grande como a Bunge pode causar", disse.

Por outro lado, de acordo com o professor, não foram colocados no EIA,quais os efluentes líquidos e gasosos liberados com o funcionamento da empresa. "É preciso analisar os efeitos da plantação de eucalipto, que um 7 anos vai substituir a mata atual e, ainda, a abertura de canais para a plantação da soja, que são áreas de influência direta do empreendimento, e não fizeram nada disso", disse, acrescentando que estas falhas precisam ser corrigidas o mais rápido possível.

Para ele, a única saída é separar uma área, pelo menos de 200 mil hectares, para abrigar amostras do bioma. O cerrado tem importância fundamental para a biodiversidade e, em especial o do Piauí, porque está em zona de transição entre caatinga e a vegetação pré-amazônica. E, o mais grave, ainda não foi bem estudado, ou seja, estaomatando um ambiente que ainda é desconhecido. Ainda segundo ele, outras maneiras de proteger omeio dependem de decisões políticas: "Cabe ao governo disciplinar a utilização dos recursos que pertencem ao Estado".

Para o especialista, trata-se de uma "insanidade ambiental". As crianças da terceira série do ensino fundamental da escola municipal Arica Leal, em Uruçuí, a 453 quilômetros ao sul de Teresina, que participaram do "I Encontro sobre os Cerrados: ocupar com sustentabilidade", não foram as únicas pessoas que ficaram surpresas com a rapidez do processo de destruição da vegetação, naquela região.

O pesquisador da USP (Universidade de São Paulo), Álvaro Fernando Almeida, que estuda os cerrados há 27 anos, ao verificar um descampado de 80 hectares, desse que ali está ocorrendo uma "insanidade ambiental".

A corrida pela destruição da cobertura vegetal está diretamente ligada à instalação da multinacional Bunge no município. A empresa está usando a lenha como fonte de energia, para alimentar os fornos das esmagadoras de soja e vem adquirindo o produto, em grandes escala dos agricultores da região, por um preço aparentemente vantajoso, R$ 22 o metro cúbico.l

Na verdade, a empresa compra apenas de quatro agricultores. Estes, por sua vez, adquirem a madeira de outros. "Até o pequeno agricultor está derrubando a sua roça para vender lenha para a Bunge", denuncia Antônio Bispo dos Santos, da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uruçuí.

Por enquanto, a empresa já tem estoque para seis meses. O material que está no pátio é suficiente para encher um estádio de futebol. Como na legislação ambiental, não há restrição para a compra de lenha, a empresa se exime de qualquer culpa. Ela não desmata, apenas compra.

Fonte: Jornal Diário do Povo em edição de 8 de Setembro de 2003