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José
de Jesus Sousa Lemos
RESUMO:
A expansão do cultivo da soja no Sul do Maranhão e as
suas implicações ambientais, sociais e econômicas,
constituem-se no principal objetivo deste artigo científico.
Promove-se um estudo e uma análise das propriedades dos ecossistemas
envolvidos, bem como dos níveis de bem estar experimentados pelas
famílias que vivem naquelas áreas. Como resultados observam-se
os elevados níveis de pobreza e de degradação experimentados
pelos recursos naturais naquela região do Maranhão, como
consequência da expansão das áreas com esta lavoura.
Palavras Chaves: Soja; Agricultura Sustentável; Pobreza Rural;
Degradação dos Recursos
Naturais.
THE SOYBEAN EXPLOTATION IN SOUTH OF MARANHÃO STATE: ENVIRONMENTAL,
SOCIAL AND ECONOMIC IMPLICATIONS
SUMMARY: The principal objective of this paper is to show the social
and environmental implications of soybean area expansion in South of
Maranhão State. In order to achieve those objectives we make
up a study of the ecosystems proprieties where soybean is cultivated,
as well as the life well being of rural population living in those areas.
As results we can say that they have a very strong level of poverty,
and the natural resources are facing a very high level of degradation,
as consequence of expansion in cultivation of soybean in this region
of Maranhão State.
Key words: Soybean; Sustainable Agriculture; Rural Poverty; Natural
Resources
Degradation.
_________
*Estudo parcialmente financiado pelo Instituto do Homem, ONG localizada
em São Luís, Maranhão.
**Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Economia Ambiental e dos Recursos
Naturais pela Universidade da Califórnia, EUA; Professor Adjunto
da Universidade Federal do Ceará; Professor Convidado do Curso
de Mestrado em Agroecologia da UEMA;Professor Colaborador do Curso de
Mestrado em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Sustentável
da Universidade Federal do Pará; Consultor da ASSEMA, ONG maranhense
e do IGEPA, ONG cearense; Ex-Professor Visitante na Universidade da
Califórnia, EUA de maio de 1994 a outubro de 1995.
E-Mail: lemos@ufc.br ou joselemos@baydenet.com.br
PROBLEMA E OBJETIVOS
Nos
últimos anos, sobretudo a partir do início desta década
de noventa, observa-se uma mudança de perfil na agricultura maranhense
localizada no Pólo Sul do estado. Ali, mediante a adoção
de fortes incentivos por parte do Governo Maranhense, traduzidos na
forma de renúncia fiscal e pela criação de infra-estrutura
com recursos orçamentários provenientes do setor público,
vem se expandindo de forma espetacular a monocultura da soja. Este fato
pode ser constatado através de uma avaliação da
estrutura de produção das principais lavouras temporárias
registradas nos Censos Agropecuários do Maranhão a partir
dos anos setenta. Por estes documentos, observa-se que apenas a partir
de 1985 passou a haver o registro de ocorrência de áreas
com soja, da magnitude de 7.189 hectares que produziram 8.089 toneladas,
portanto com uma produtividade da terra da ordem de 1,11 toneladas por
hectare. Em 1995 foi registrada uma produção de soja da
ordem de 135,12 mil toneladas, em uma área de 62,36 mil hectares,
portanto com uma produtividade da terra da magnitude de 2.168 kg/hectare
(TABELA 1).
No período compreendido entre os Censos Agropecuários
de 1970 e 1995/96, as áreas com arroz oscilaram entre os 482,27
mil hectares de 1970 e os 409,85 mil hectares registrados em 1996, tendo
o pico de área com a lavoura de arroz sido alcançado em
1980 (737,75 mil hectares). Neste mesmo lapso de tempo, as áreas
com feijão, mandioca e milho, oscilaram de 74,77 mil a 63,29
mil (feijão); 154,15 mil a 107,49 mil (mandioca); e 360,77 mil
a 287,79 mil (milho). Estes resultados podem ser conferidos na Tavela
1. Portanto, observa-se um declínio na área com todas
as lavouras temporárias tradicionais, e um acréscimo substancial
das áreas cultivadas com soja no estado.
TABELA
1: Áreas Ocupadas e Produção das Principais Lavouras
Temporárias do Maranhão entre os Censos Agropecuários
de 1970 e 1996.
ARROZ FEIJÃO MANDIOCA MILHO SOJA
ANO Produção(Ton.) Área(HA) Produção(Ton.)
Área(HA) Produção(Ton.) Área(HA) Produção(Ton.)
Área(HA) Produção(Ton.) Área(HA)
1970 650.852 482.271 22.351 74.774 817.187 154.145 136.045 360.769 ...
...
1975 894.165 614.974 21.929 53.645 920.522 140.373 147.329 358.436 ...
...
1980 1.026.0847 737.753 30.402 91.289 781.846 110.650 163.617 416.541
... ...
1985 779.322 636.219 25.744 79.891 807.107 148.736 209.138 431.215 8.089
7.189
1995/96 561.255 409.848 19.818 63.292 584.731 107.489 178.364 287.793
135.123 62.326
Fontes dos Dados Brutos: Censos Agropecuários do Maranhão
de 1970 a 1995/96.
De
acordo com o informativo do Balanço Anual – 1997 do Maranhão,
a área com soja expandiu-se para 130 mil hectares na safra de
1997, num salto quantitativo bastante significativo. A produção
total de soja, segundo registro daquela documento, atingiu 194,8 mil
toneladas na safra 1996/97 com uma produtividade da terra da ordem de
aproximadamente 1,50 toneladas por hectare, portanto menor do que a
registrada pelo Censo Agropecuário do Maranhão para 1996.
Este projeto de expansão, que resulta de uma prioridade que tem
todos os ingredientes para ser equivocada, recebe um reforço
adicional do Governo do Estado, materializado por ações
junto a organizações como BNDES, Banco do Brasil, Banco
do Nordeste, EMBRAPA, SUDAM e SUDENE, no sentido de que sejam priorizados
os projetos voltados para a região sul maranhense. O estado está
cumprindo a sua parte, viabilizando a conclusão da infra-estrutura
necessária, como por exemplo, a construção de ramais
da Ferrovia Norte-Sul do estreito de Balsas. Além dessas ações
está promovendo a modernização do Porto de Itaqui,
realizando a recuperação e a manutenção
de rodovias federais que atendem àquela artéria, realizando
a complementação do sistema de transmissão e distribuição
de energia elétrica, bem como fazendo a modernização
dos sistemas de transmissão de dados e de informações.
Para justificar as ações a Governadora do estado manifestou-se
da seguinte maneira:
“São projetos muito importantes para a região que,
com certeza, vão contribuir, num futuro próximo, para
a redução das desigualdades regionais hoje existentes
no Brasil.” (Gazeta Mercantil, 22/4/1999).
Segundo o Gerente de Planejamento do estado do Maranhão, o atual
Governo investiu somente na região Sul do estado, mais de R$100,00
milhões, em obras de energia, saneamento básico, recuperação
e asfaltamento de estradas, dentre outros investimentos. (Gazeta Mercantil,
22/04/99).
A expansão de áreas com monoculturas traz problemas a
qualquer ecossistema, na medida em que retira a cobertura vegetal original
e a substitui total ou parcialmente, por imensas áreas com algumas
ou mesmo com uma única cultura. Concomitantemente à descaracterização
da paisagem natural, haverá a impactação sobre
a fauna silvestre nativa, que perderá as condições
do seu habitat natural. As imensas áreas com monoculturas viabilizam
o surgimento de pragas e doenças, que antes não se manifestavam,
ou se manifestavam em proporções desprezíveis,
face à biodiversidade que mantinha o sistema em equilíbrio,
graças à multiplicidade de espécies e de predadores
naturais, que desaparecem junto com a eliminação da diversidade
da paisagem. O surgimento dessas pragas e doenças, por sua vez,
fomenta a utilização maciça de agrotóxicos
(inseticidas, fungicidas, herbicidas, nematicidas, ou praguicidas em
geral) que impactam o restante da fauna (e da flora) remanescentes.
Estas práticas, obviamente eliminam as pragas, mas eliminam também
os predadores naturais dessas pragas. Vale ressaltar que o uso continuado
de determinado pesticida, faz com que as pragas criem mecanismos de
resistência. Este fato, associado com a eliminação
dos predadores naturais, propicia o recrudescimento destas pragas e
doenças nas áreas de forma extremamente voraz e destruidora,
o que induz a utilização de praguicidas quimicamente mais
fortes, gerando-se assim, um círculo vicioso altamente maléfico
ao ambiente e para o ser humano nele inserido. Este é o cenário
generalizado, e que sempre será manifestado quando, de forma
inadvertida, a ação antrópica retira a manta verdejante
natural diversificada, para apor em seu lugar atividades monolíticas
de cultivo.
Estas dificuldades tornam-se mais acentuadas, quando os ecossistemas
agredidos desta forma são naturalmente fragilizados, como se
trata do caso das áreas sob cerrados. Aí o equilíbrio
se mantém face à sinergia que existe entre a vegetação
natural, a fauna nativa, temperatura e regime pluviométrico.
Neste estudo objetiva-se fazer uma discussão sobre as fragilidades
dos ecossistemas de cerrados e as prováveis implicações
de sua utilização em cultivos intensivos em capital e
agroquímicos em atividades agrícolas de monoculturas ou
não diversificadas. Objetiva-se também apresentar indicadores
de degradação e de pobreza nos municípios maranhenses
situados no Pólo Sul, onde vem sendo incentivado e incrementado
o cultivo da soja de forma intensiva no uso de capital na forma de maquinário
pesado e de agroquímicos. Adicionalmente a pesquisa contempla
uma análise da capacidade dessas áreas com monoculturas
implantadas no Sul do Maranhão em reter a mão de obra
diretamente envolvida com atividades agropastoris.
Regiões
sob Cerrados: Características Gerais e Fragilidades (uma síntese)
A discussão que se segue mostra as características generalizadas
dos ecossistemas sob cerrados, as suas peculiaridades e as prováveis
conseqüências da sua utilização de forma intensiva,
com extensas áreas de lavouras sem diversificação,
que requerem um forte aparatos de capital, nas formas de mecanização
e de agroquímicos.
As áreas sob vegetação de cerrados no Brasil, segundo
estudos realizados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA) em 1978, ocupam um espaço de 1,8 milhões de
quilômetros quadrados, o que representa aproximadamente 20% de
toda a superfície territorial brasileira. Os regimes climáticos
que prevalecem nestas áreas são variáveis e heterogêneos,
e podem ser caracterizados em cinco regiões. Segundo AZEVEDO
& CASER (1980) , a primeira região recebe a influência
do clima amazônico, que é quente e úmido, e cobre
os estados de Tocantins, norte de Mato Grosso e o Sul do Maranhão.
As demais regiões sob cerrados espraiam-se pelos estados do Piauí,
Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo.
As vegetações predominantes nas áreas sob cerrados
podem ser distinguidas em quatro tipos, com base em aspectos ecológicos,
fisiognômicos, e segundo uma ordem crescente de biomassa arbustiva
ou arbórea, a saber: campo limpo; campo cerrado; cerrado e cerradão
(LOPES, 1983).
As regiões sob cerrados apresentam como um das suas características
marcantes a presença de um estrato herbáceo denso, onde
predominam gramíneas que suportam bem os regimes de estiagens,
sendo plantas xerófilas, portanto. A paisagem de cerrados se
complementa com a presença de árvores lenhosas, e com
um sub-bosque arbustivo que é composto basicamente de plantas
decíduas, ou que estão sempre com a coloração
esverdeada, independentemente do regime de chuvas (GUTBERLET, 1998).
As espécies florestais encontradas nos cerrados, geralmente apresentam
um sistema radicular com raízes bastante profundas. A estabilidade
das plantas do cerrado está bastante relacionada com a intensidade
e o tipo de exploração que impactam este tipo de ecossistema.
Os impactos na estabilidade destes agroecossistemas variam de acordo
com a magnitude das perturbações exógenas, podendo
ocorrer a extinção de algumas espécies, devido
à prática da agricultura tradicional realizada pelos pequenos
agricultores e identificada como “roça-de-toco”,
que utiliza a queimada dos restolhos de culturas para ajudar na limpeza
das áreas de plantio. No entanto, pode ocorrer a completa remoção
de todas as espécies nativas, se forem utilizadas as práticas
veiculadas pela chamada agricultura moderna, que é intensiva
no uso de capital. Vale ressaltar que a diversidade original do ambiente
de cerrados se constitui em importante fator amortizador ou atenuador
dos impactos provocados por estresses oriundas da ação
antrópica.
São solos que se caracterizam, em geral, por apresentarem níveis
bastante críticos de macronutrientes. Apresentam, geralmente,
uma elevada concentração de alumínio e um também
elevado nível de acidez, traduzido em um baixo pH, que estes
solos normalmente sustentam. Em função da dinâmica
do equilíbrio existente nestes ecossistemas, os teores de matéria
orgânica, na sua grande maioria, apresentam-se em níveis
que variam de médios a altos, “tudo indicando que esta
é a principal função envolvida na formação
de cargas negativas e troca de cátions” (Lopes, op. cit.
P. 25).
Nos casos dos cerrados localizados no Sul do Maranhão, as dificuldades
são agravadas pelo regime pluviométrico intenso que ocorre
durante a quadra chuvosa. As chuvas intensas lixiviam o cálcio
existente na superfície para o interior do solo, o que reduz
a disponibilidade deste nutriente (já escasso) na parte superior,
e que seria utilizado pelas culturas. Estas características de
deficiência de nutrientes, presença de um nível
elevado de acidez, teores elevados de alumínio e pH ácido
desses solos, dificultam a sua utilização em atividades
agrícolas, tornando-as mais caras, se o objetivo for a sua utilização
em grandes escalas de produção.
Contudo, as práticas utilizadas pela pequena agricultura no toco,
em que a queima é utilizada como parte do processo de preparo
das áreas para o plantio, apesar de provocarem danos para algumas
espécies, como já foi discutido acima, consegue viabilizar
a permanência e a exploração destes ecossistemas,
de uma forma mais duradoura. Nestes mecanismos de exploração,
os pequenos agricultores familiares utilizam cada área por dois
ou três anos seguidos (em geral desmatam de um a dois hectares),
e em seguida deixam as áreas utilizadas em regime de pousio que
pode durar até 10 anos, dependendo da disponibilidade das áreas,
e da pressão demográfica eventualmente existente. Este
mecanismo viabiliza a recuperação daquelas áreas
e, por conseguinte, a sua capacidade de sustentação das
famílias ali instaladas. Este sempre se constituiu no sistema
de exploração praticado pelas comunidades nativas dessas
áreas, sobretudo pelas comunidades indígenas.
As práticas da agricultura no toco, apresentam ainda outras vantagens,
de um ponto de vista ambiental. A presença dos tocos nas áreas
irá possibilitar a rebrota das espécies, que darão
origem às coberturas secundárias, que originarão
as futuras capoeiras, que por sua vez, constituirão a nova cobertura
vegetal. Além deste aspecto, por si só da maior relevância,
de um ponto de vista ambiental, a presença desses tocos nos roçados,
dificulta ou mesmo neutraliza, o processo de erosão provocado
pelas chuvas torrenciais, ou mesmo pelos ventos. Isto decorre do fato
dos sistemas radiculares das plantas originais, que permaneceram fortemente
fincados nos solos, atuarem como barreiras refratoras ou como anteparos
a estas torrentes pluviais. Por outro lado, estas raízes ainda
funcionam como verdadeiras veias que facilitam a drenagem ou a irrigação
dessas águas pluviais superficiais para o interior do lençol
freático, promovendo assim a sua necessária recarga.
Portanto, práticas agrícolas que impliquem no destocamento
dessa áreas terão implicações fundamentais
sobre a estabilidade e a recomposição futura desses agroecossistemas.
Estas práticas que consistem na utilização de maquinário
pesado, associado aos mecanismos capitalistas de exploração
agrícola, não serão sustentáveis de um ponto
de vista econômico, porque requerem investimentos maciços
de capital, e o uso intensivo de agroquímicos. Também
não são sustentáveis de um ponto de vista ecológico,
haja vista que as áreas tendem a degradarem-se rapidamente, o
que inviabilizará a sua utilização futura. Além
destes males, estas práticas intensivas em capital, são
liberadoras de mão de obra. Assim, além de destruírem
a base de recursos naturais, estas práticas provocam desemprego
e migração, como seu corolário, da população
rural.
Desta forma, a utilização das áreas dos cerrados
maranhenses situados no Pólo Sul do estado, com extensas áreas
de monocultura de soja ou milho híbrido, nas dimensões
das já existentes, e pelas projeções que são
feitas para a sua expansão nos próximos anos, terá
um impacto espetacular, no sentido de ser degradador, sobre aqueles
ecossistemas que, são naturalmente, fragilizados.
No modelo de agricultura dita moderna, ali implementado, são
utilizados os chamados pacotes tecnológicos, que consistem na
utilização maciça de maquinário pesado,
e um volume acentuado de agroquímicos, como corretivos de solo,
adubos, além de agrotóxicos (pesticidas em geral, como
inseticidas, fungicidas, nematicidas, herbicidas e até desfoliantes).
A cobertura vegetal é totalmente derrubada, havendo a destoca,
mediante a utilização de tratores de diferentes portes
e potências, sendo em seguida jogado sobre as áreas descobertas,
o calcário e os adubos químicos. Ou seja, estes mega agronegócios
se materializam mediante a utilização de um forte aparato
mecânico que poupa mão de obra e utiliza maciçamente
os agroquímicos, que devido ao arraste da camada de matéria
orgânica superficial que provocam, por conseqüência
da operação de destoca, e devido à compactação
decorrente do uso das máquinas, irão provocar danos irreparáveis
àqueles ecossistemas.
Segundo Lopes (op. cit.), os solos sob cerrados apresentam uma série
de fatores limitantes para a utilização em grandes empreendimentos
agropecuários. Estas limitações poderiam ser listadas
da seguinte forma:
i – constituem-se de solos extremamente ácidos, com problemas
de toxidez de alumínio e, em certos casos, de manganês;
ii – caracterizam-se como solos que apresentam teores extremamente
reduzidos de fósforo, cálcio, magnésio, zinco,
enxofre, nitrogênio, e teores reduzidos de potássio, cobre
e boro;
iii – apresentam uma capacidade de troca de cátions extremamente
baixa, tanto na camada arável, com nas camadas subsuperficiais;
iv – apresenta toxidez de alumínio nas camadas localizadas
abaixo da camada arável, que associada aos baixos níveis
de cálcio, é certamente o fator mais limitante para o
desenvolvimento radicular em profundidade;
v – ocorrência de “veranicos” no período
das chuvas com duração e incidência variáveis.
Por todos estes aspectos, haverá uma necessidade bastante significativa
da utilização de altos investimentos iniciais, voltados
para os objetivos de correção de acidez, toxidez de alumínio,
e aumentar a baixa, e generalizada, deficiência de nutrientes.
Todo este processo, altamente dispendioso, só será viabilizado
economicamente se houver uma forte participação do Estado,
via políticas públicas de crédito rural amplamente
subsidiado, e/ou via renúncia fiscal, como é o caso da
expansão da soja no Sul do Maranhão. Segundo estudo realizado
pelo IBASE em 1986, a eficiência técnica associada à
utilização de adubos químicos e corretivos na produção
de soja, em ambiente sob cerrados, é da ordem de 80%. Isto quer
dizer que, para cada tonelada de grãos de soja, são necessários,
pelo menos, 0,8 toneladas de adubos e corretivos químicos. Para
produzir soja nos cerrados, além dos adubos e corretivos dos
solos, a agricultura dita moderna utiliza um grande arsenal de máquinas
e de pesticidas. Estes fatos sinalizam para a não sustentabilidade
econômica desta lavoura, se não houver esta forte presença
do Estado, criando-lhe as condições de eficiência
econômica, que naturalmente não possuem, embora possam
ser tecnicamente eficientes, no sentido neoclássico de análise
econômica. Mesmo a teoria neoclássica, ensina que a eficiência
técnica não implica necessariamente em eficiência
econômica.
As discussões apresentadas acima possibilitam antever o que provavelmente
ocorrerá aos ecossistemas localizados no Pólo Sul maranhense,
caso a atual prioridade continuar a prevalecer para as políticas
públicas deste estado. Além do mais, os benefícios
econômicos advindos dessas explorações, aferidos
pela geração e pelo acúmulo de riquezas na área,
beneficiarão um grupo restrito de empreendedores, detentores
de meios de produção financiados pelo Estado, deixando
à margem um contingente bastante significativo de brasileiros
ali ainda residentes, a quem não restará outra alternativa,
a não ser a migração para as áreas urbanas
do estado, ou mesmo para outros estados, como aliás já
vem acontecendo, e está registrado na última recontagem
da população realizada pelo IBGE em 1996. Ou seja, a permanecer
o atual projeto de exploração dos cerrados maranhenses,
a concentração da renda neste estado (que já se
caracteriza por ser uma das mais elevadas do país, que por sua
vez é uma das mais altas do mundo), tenderá a se agravar,
e a pretendida e bem intencionada redução das desigualdades
regionais almejadas e explicitadas no discurso da Governadora do estado,
não irá ser concretizada, e o Maranhão poderá
prosseguir a presenciar um fluxo migratório descontrolado, o
que continuará a pressionar as já precárias condições
prevalecentes na zona urbana das cidades maranhenses, sobretudo da sua
capital.
ASPECTOS
METODOLÓGICOS E FONTES DOS DADOS
De um ponto de vista metodológico, o estudo baseiam-se em dois
outros trabalho produzidos anteriormente (LEMOS, 1998; e LEMOS, 2000).
Naqueles dois estudos são utilizados procedimentos de análise
multivariada para a construção de dois índices.
Índice de Degradação, que afere o percentual de
degradação apresentado em todos os municípios da
região Nordeste, e Índice de Pobreza, que tenta captar
os níveis de pobreza rural e urbana dos estados e municípios
brasileiros. O Índice de Pobreza é estimado a partir de
privações. Assim na sua composição entram
o percentual de domicílios que não tem acesso a saneamento
no município; o percentual de domicílios que não
tem acesso a água tratada; o percentual de domicílios
cujas famílias sobrevivem com renda de zero até três
salários mínimos; e o percentual de pessoas maiores de
15 anos analfabetas ou com no máximo 1 ano de escolaridade. Na
construção do Índice de degradação
utilizaram-se quatro indicadores a saber: cobertura vegetal relativa
do município, que foi calculada pelo somatório das áreas
com lavouras e temporárias, áreas com florestas naturais
e plantadas, em relação à área do município.
Produtividade das lavouras que foi aferida pela relação
entre o valor da produção vegetal e a área com
lavouras perenes e temporárias. Produtividade da produção
animal, que foi estimada pela relação entre o valor da
produção animal do município e o total das áreas
com pastagens naturais e cultivadas. Relação do total
de pessoas ocupadas em atividades agropastoris e o somatório
das áreas com lavouras e pastagens. Para tanto foram utilizados
como fontes secundárias de informação os dados
publicados nos Censos Agropecuários dos nove estado da região
de 1995/96; as Pesquisas Nacionais de Amostras por Domicícilo
(PNAD/IBGE), e os censos demográficos estaduais de 1991. Maiores
detalhes metodológicos podem ser encontrados nos trabalhos citados
acima.
EVIDÊNCIAS ENCONTRADAS
Pobreza e Degradação no Estado do Maranhão
Em pesquisa recente realizada por LEMOS (2000) foram estimados os índices
de pobreza para o estado do Maranhão comparativamente aos demais
estados brasileiros, nas respectivas zonas rural e urbana, bem como
para todos os 136 municípios maranhenses contabilizados no Censo
Agropecuário de 1995/96, portanto antes das últimas emancipações.
Para estimar os índices de pobreza para os estados brasileiros
e para os municípios, Lemos (2000) levou em consideração
os níveis de privação efetivamente observados nos
estados e municípios. Estas privações são
basicamente: de saneamento (ao menos uma fossa rústica no domicílio);
de acesso a água encanada (existência de pelo menos um
bico de torneira conectada a rede pública de abastecimento);
privação de coleta sistemática de lixo; privação
de educação (população maior de 10 anos
analfabeta ou com no máximo 1 ano de escolaridade); e privação
de renda (percentagem de pessoas que sobrevivem em domicílios
cuja renda é de no máximo três salários mínimos).
Para estimar o índice de degradação nos municípios
maranhenses, Lemos (2000) utilizou as seguintes variáveis devidamente
modificadas: área relativa com cobertura de florestas naturais
e/ou plantadas; área relativa com cobertura de lavouras perenes;
área relativa do município com cobertura com lavouras
temporárias; valor da produção agrícola
por hectare (aí somou-se as áreas com lavouras permanentes
e temporárias); valor da produção animal por hectare
de pastagens (naturais e plantadas); mão de obra ocupada em atividades
agrícolas e/ou pecuárias por hectare de lavouras e de
pastagens. Em seguida estima-se o índice de degradação
(ID) empregando-se métodos de análise multivariada (maiores
detalhes ver o trabalho em referência).
Com base nas evidências encontradas nos dois estudos destacados
acima, depreende-se que o estado do Maranhão detém o maior
percentual de pobres, dentre os estados brasileiros. Com efeito estima-se
que 64% da população maranhense é pobre no sentido
de ser privada de educação, saneamento, água encanada,
coleta de lixo e renda. O estudo também mostra que, em ordem
decrescente, seguem-se ao Maranhão em níveis de pobreza,
os estados de Piauí, Tocantins e Ceará. Para o Brasil
estima-se uma população pobre que soma atualmente mais
de 50 milhões de brasileiros. O estado do Ceará é
o estado brasileiro que detém o maior percentual de pobres na
zona rural, dentre todos os estados brasileiros. O Maranhão detém
o terceiro maior percentual de pobres sobrevivendo na zona rural (Lemos,
2000).
Das evidências encontradas para os municípios localizados
no Pólo Sul do Maranhão, onde estão sendo incentivadas
e expandidas práticas de agricultura não diversificadas
e intensivas em capital, depreende-se a situação bastante
difícil, tanto em termos de pobreza, como no que se refere aos
percentuais de degradação estimados. De fato, três
dos municípios situados no Pólo Sul maranhenses (Alto
Parnaíba, Tasso Fragoso e Loreto) estão entre os cinco
municípios mais degradados do estado. Estas evidências
(ver TABELA 2) elucidam que para o município menos degradado
dessa região (São Raimundo das Mangabeiras), já
estima-se um ID de 81,93%. Para este município estimou-se um
percentual de pobreza (IP) da ordem de 73,41%. Por outro lado, o município
mais degradado é Alto Parnaíba, com um ID de 92,52% e
um IP estimado de 69,33%.
Fortaleza dos Nogueiras (81,53%) e Riachão (80,61%), constituem-se
nos dois municípios do Pólo Sul maranhense com maiores
indicadores de pobreza. Para estes dois municípios estima-se
um ID de 88,84% para Fortaleza dos Nogueiras; e um ID de 88,47% para
Riachão (Tabela 2).
Além disso, os níveis de concentração fundiária
estimados para todos aqueles municípios também são
bastante elevados. De fato o índice de Gini, cuja amplitude de
variação está contida no intervalo entre zero e
um (sendo a proximidade da unidade um indicador de concentração
perfeita), em todos aqueles municípios estão acima de
0,67, chegando aos valores de 0,9258 em Loreto e 0,9225 para São
Raimundo das Mangabeiras (Tabela 2).
Uma característica importante desses municípios é
a reduzida capacidade que têm de manterem ocupado um maior contingente
de mão de obra, justamente devido à forma intensiva no
uso de maquinário com que são realizadas as práticas
agriculturas ditas “modernas” que aí se praticam
com incentivos do poder público. De fato, constata-se que em
Alto Parnaíba, em média cada 100 hectares empregam apenas
2 trabalhadores nas atividades agrícolas. O município
que detém a performance menos dramática neste item é
Fortaleza do Nogueira, para onde estima-se que em média cada
100 hectares ocupam apenas 7,8 trabalhadores em atividades agropastoris.
(Tabela 2).
TABELA
2: Índices de Degradação, de Pobreza e de Gini
de Concentração da Terra e Capacidade Fixadora de Mão
de Obra para os Municípios Localizados no Pólo Sul do
Maranhão
MUNICÍPIO Índice de Degradação (ID)(%) Índice
de Pobreza (% de pobres) Índice de Gini de Concentação
da Terra Mão de obra ocupada para 100 hectares
Alto Parnaíba 92,52 69,33 0,8252 2,0
Tasso Fragoso 91,53 75,84 0,7540 2,2
Loreto 90,90 79,50 0,9258 6,5
Fortaleza dos Nogueiras 88,84 81,53 0,6727 7,8
Riachão 88,47 80,61 0,7744 6,7
Balsas 88,22 69,59 0,7082 4,2
S.Raimundo das Mangabeiras 81,93 73,41 0,9225 5,6
Fontes: LEMOS, 1999 e LEMOS, 2000.
CONCLUSÕES
A partir das evidências mostradas neste estudo e através
das discussões acerca das fragilidades associadas aos ambientes
nas áreas de cerrados, percebe-se o quanto é temeroso
o processo de ocupação e uso das terras no Pólo
Sul do Maranhão, cujo ambiente é extremamente fragilizado,
e que já apresenta níveis bastante elevados de degradação,
como decorrência da substituição indiscriminada
da cobertura vegetal inicial por extensas áreas de monoculturas,
sobretudo de soja. Há que refletir-se com toda a cautela pertinente,
no sentido de rever e até reverter as atuais prioridades de políticas
públicas voltadas para aquela área. De fato, para boa
parte dos municípios situados na área de influência
do Pólo Sul maranhense estimam-se níveis alarmantes, tanto
de pobreza como de degradação ambiental. Associada a estes
níveis de pobreza e de degradação está a
reduzida capacidade de fixação de mão de obra que
se observa nestes municípios, com decorrência do tipo de
agricultura intensiva no uso de capital, sobretudo na forma de máquinas
e equipamentos mecânicos de grande porte.
Além do mais, como se trata de um estado que apresenta indicadores
bastante dramáticos de qualidade de vida, o Maranhão não
poderia se dar ao luxo de promover renúncia fiscal, sobretudo
atraindo empreendimentos que além de degradarem o ambiente, promovem
concentração da renda e da riqueza, geram poucos postos
de trabalho para os maranhenses, e, portanto, tem um forte conteúdo
de exclusão social. Estes fatos contribuem para o incremento
das dificuldades sociais, ambientais prevalecentes no estado e naquela
área específica, embora possa ser alardeado que ali há
um crescimento do produto agregado do setor agrícola, que como
se sabe, não implica necessariamente em melhoria nos padrões
de vida das populações, e via de regra, como se trata
no caso específico, ocorre com uma elevada concentração
da riqueza e da renda geradas. Este é sem dúvidas o caso
dos municípios situados no Pólo Sul do estado do Maranhão.
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